Tem que ser para os dois lados

Incluída no Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH) lançado por decreto em dezembro do ano passado, a Comissão da Verdade previa, inicialmente, investigar apenas os crimes cometidos por agentes do Estado. Devido à pressão sofrida pelos comandantes da Marinha, do Exército e da Aeronáutica, além do ministro da Defesa Nelson Jobim, que ameaçaram pedir demissão, o texto foi modificado por determinação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e vai agora procurar esclarecer os crimes cometidos também por ex-guerrilheiros.


Porém, uma comissão que apure a atuação de repressores e militantes da esquerda na época da ditadura (de 1964 a 1985) pode constranger os dois lados. De acordo com dados apurados pelo Estado, um em cada três ativistas mortos no período (31,8%) não tinha ligação com organizações armadas; o mesmo aconteceu com um em cada quatro (24,3%) dos desaparecidos. Todos integravam partidos contrários ao enfrentamento militar do governo. Já 39,7% das pessoas cujas mortes são atribuídas por militares à guerrilha não tinham ligações com as Forças Armadas. Alguns morreram em tiroteios, atingidos por bala perdida.

A lista de ativistas mortos ou desaparecidos tem 29 pessoas: todos de partidos e grupos doutrinariamente contra a luta armada. Trinta ativistas morreram na prisão, sendo 20 oficialmente por suicídio. Já a relação de civis, cujas mortes foram atribuídas pela repressão à guerrilha, tem quatro bancários, vítimas em assaltos a bancos, uma empregada doméstica e um cobrador de ônibus.

"O que houve no Brasil não foi guerra, foi extermínio", diz a presidente do Grupo Tortura Nunca Mais do Rio de Janeiro, Cecília Coimbra. 

Os números podem gerar argumentos para os dois lados. Os dados sobre militantes assassinados sem ligação com a luta armada enfraquecem a versão de militares que defendem a atuação repressiva das Forças Armadas como necessária para enfrentar a "guerra suja" movida por militantes armados nos anos 60 e 70. Já as informações sobre civis mortos pela guerrilha tornam difícil sua defesa como enfrentamento militar da ditadura: as 45 vítimas "colaterais" equivalem a cinco vezes os nove membros das Forças Armadas mortos pela guerrilha no período.

Para o presidente do Clube Militar, general da reserva Gilberto Figueiredo, a mudança feita pelo governo melhorou a proposta. "Agora, o problema é o esclarecimento dos fatos", afirma. "Tem que ser para os dois lados”.

 

 

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